Homen-agem
Olá a todos, inicia-se mais uma semana, revigorado, começo com uma Homenagem... semana passada o poeta Jardson Fragoso fez sua estréia aqui no blog... pois bem, para quem não sabe ele sempre foi meu compassa na arte literária... meu primeiro livro foi escrito com sua co-autoria e quase todas minhas discussões e deleites sobre literatura foram vividos na sua companhia... e nisso, falo de poesias co-construídas, saraus, debates, pesquisas etc... dentre essas divagações poéticas tem-se também uma homenagem... na verdade, esse poema surgiu-se e precisava ser nomeado por nome de gente (não me perguntem porquê)... pois bem, e não via outro nome mais fidedigno que o do Jardson... dado o nome, mostrei-o, ele não gostou muito e disse que não havia nada com ele... hehehe... por isso que nossa companhia é tão divertida... reconheço que a primeira vista o poema é hermético demais e muito duro e seco... aliás parace que o ar seca ao lê-lo, sei lá... mas a mim à outra pessoa não poderia ser dedicado esse poema, senão...
Jardson Fragoso

Pó. Poeira. Nada.
Vai. Fui. Acabando-se.
Vácuo...
Vento. Nuvem. Oco.
Passo devagar. Leve. Levado.
Eu sou pele.
A fina pele. Dele.
A casca. Acabando-se.
Quando só resta a casca.
Eu sou a pele dele.
Pó. Poeira. Nada.
Melancolia
De quem não con-segue...
Vai-se. Vai-se.
De quem sempre é o mesmo.
Autor: Ramon Alcântara
Escrito por ramon às 09:33:22
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SOLILÓQUIO DO CONDENADO
Filha da puta! ... que pressa é essa?... alimentará, os porcos com meus próprios horrores... os carniceiros podem esperar,... adie a degustação e faça-os gozar nas calças de tanta satisfação e quiçá vomitar seus males, se tiverem coragem... duvido!... enganem-se se dizendo melhores que eu,... "Mãe?! Mamãe?!!"... Bastaaaaaaaaaaaaa!,... Cala a boca, moleque jazido! Ela se foi... foi embora,... já não chega a minha dor? Já não me atordoou o suficiente denunciando meu fracasso e acusando-me: incompetente?,... e esse seu sorriso doce e o amor inocente pela vaca da sua mãe?... merda! Tinha que espelhar o pior de meus erros em mim?... Tinha que me esfaquear com seu sorriso chamando a mãe?,... e agora jaz, como eu, por essa mesma vagabunda que me deixou!... por que foi que partiu?... vamos, terminem logo,... sirvam-me aos porcos,... quando foi que deixei de te servir?... Quando?... onde está, Hannah?... Não a vejo! Vaca!... onde esteve? onde está? ... cala a boca, velha maldita! ... cala-te! ... a voz, ... essa voz... algo de conhecido,... algo de vivido,... Como, no meu lugar? ... está maluca? ... Eu o esfaqueei,... preciso dar um basta,... preciso,... cadela, vai me emocionar agora?... esse beijo me traz a memória do que não tive,... e esse cheiro envelhecido?! (...) rodopio em lembranças esquecidas de um tempo remoto,... cinco anos,... pião perdido no tempo num rodopio do destino,... Por que me vejo nesse olho só?... e vocês, porcos,... ela é melhor que todos juntos e não suportam suas próprias culpas? Vejam! Olhem! (...) Olhem, covardes!,... Olhem para a... "Mãe?! Mamãe?!!",... olhe para mim com esse olho e só,... (soluço)... adeus!
Decca
http://papirus.zip.net/
Escrito por nano costa às 01:18:44
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DESFRAGMENTO DA FORCA
" [ ] huuuuu [ ] trile, trile, trile.... snock, snock...TRAGU TRAGU TRAGU... trile, trile, trile... [ ] snock, snock.... TRAGU, TRAGU, TRAGU.... trile, trile, trile..... splechium...... trile, trile..... enhencu, enhencu..... trile, trile...... [ ]"
Ramon Alcântara
http://literatura.nadadenovo.zip.net/
Escrito por nano costa às 01:03:40
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Olá gente... continuando a publicação da Trilogia do Ciúme trago hoje o terceiro conto (o penúltimo)... permito-me algumas considerações antes... durante algum tempo reservei a esse conto como principal característica seu papel estrutural na Trilogia.... ele foi o único dos quatro que foi pensado.... essa sua característica funcional, mas como se fosse uma peça na engrenagem (que era o que se destacava), fazia dele menor a minha impressão... mas depois de quase dois anos, quando releio o Desconstrução, percebo-me diante de um filho rejeitado, mas que sempre guardou seu valor... vamos a ele... a alquimia da literatura virá após o quarto... Ramon Alcântara
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DESCONSTRUÇÃO
“Há alienados chamados reticentes que dizem as coisas pela metade, para que se não desvende aquilo em que meditam”.
Henrique Belford Roxo, 1925.
Eram muitos risos, bastantes mesmo, risos em meio de carinhos e meiguices de ambos os lados. Eram assim que L... e F... estavam naquele dia. Para eles isso tudo era supernatural, pois advinha de uma amizade entrosada e totalmente espontânea que já tinha sido cultivada há muito tempo. Assim agiam naturalmente, sem perceberem as pessoas ao redor. Quando L... e F... estavam juntos, era como se nada em volta existisse, eles entravam numa curtição transcendental de uma forma amorosamente mágica. Porém, como é de conhecimento de todos, todos esses risos, todo esse amor magical se torna insuportável para as pessoas que estão por perto. Naquele dia “eu” estava, para infelicidade minha. Desta forma eles continuaram com aqueles sussurros no ouvido, com aquelas piadas que só eles entendiam e principalmente, para o horror dos meus indiscretos olhos, com aquelas carícias escondidas. “Eu”, por dentro, enferrujava-me de raiva, por achar que toda aquela pateticidade era uma tremenda falta de respeito para as pessoas que também participavam daquela reunião. Percebia nos rostos dos reunintes que o mal-estar já se fazia presente, alguns torciam a boca, outros ficavam em pé inquietos e os mais sentimentais começavam a expressar gotículas de lágrimas. “Eu” já acostumado com aquela palhaçada de L... e F..., concentrava-me para analisar todo o contexto e empurrava toda minha descontentação para meu infeliz pescoço (é lá que se concentram meus sintomas: coceiras compulsivas). Para felicidade de todos, menos de L... e F..., a reunião acabou. Eles se despediram já prevendo o próximo encontro, mostrando aquela preocupação idiótica da amizade. “Oh! Como vai ficar minha L...zinha sem mim?”, “Oh! Como meu F...zinho vai se comportar sem a L...zinha dele?”. Argh! Não suportei agüentar o que vem depois dessas porcarias e saí. Mas para o deleite dos curiosos poderei relatar: vêm os beijos múltiplos e demorados e os abraços esfregadiços com mais frasisinhas de preocupação e de amor.
No outro dia “eu” acordei, para variar, de bom humor. Mas sabia que meu bom humor só duraria até L... e F..., vem sendo constantemente assim. Porém algo aconteceu diferente naquele dia. Quando cheguei L... ainda estava sozinha (aliás ela sozinha é muito simpática), mas não demorou muito para F... chegar (esse até não existindo é intragável). Notei que meus dias poderiam ser melhores, quando eles se cumprimentaram, havia algo ainda não identificado de diferente naqueles beijos, naqueles abraços e naqueles ‘enhenhenenhen’. Sei lá! Mas não foi como nos últimos anos, acho que ninguém percebeu, só “eu”, que já vinha estudando todos esses nojentos rituais da amizade. Tenho plena certeza, como especialista que sou, que nem L... nem F... perceberam também essa deficiência no seu encontro. Resolvi acompanhar o caso mais de perto. Além disso tudo, “eu” tinha mais uma prova que houve uma pequena fresta de abismo entre os dois: minhas coceiras no pescoço foram de menor impacto. Fiquei observando os dois lá do meu ângulo reservado no quadrado que nos encontrávamos. Para sorte minha eles ficavam no ângulo que fazia diagonal com o meu, assim não precisava ficar deslocando o rosto para observar. Ahá! “Eu” estava certo, eles conversaram muito pouco para o normal já apurado por mim. Notei que os assuntos vinham de forma lenta e os débeis sorrisos constantes soavam mais discretos. Quando L...zinha saiu, F...zinho nem fez aquele enxame todo. “Ah! Meu amor!” foi a única coisa que pude ouvir e ainda saiu meio sem jeito, meio sem graça. Meu pescoço, a essa altura, parou de coçar, para quem não sabe, foi a primeira vez nos últimos anos. Era extremamente agradável para minha pessoa ter as mãos livres e acima de tudo não ficar sob o domínio daquela agonia dermatológica. Como fiquei sozinho com F... no quadrado, não suportei, ele ria para mim. Argh! Ele ria para mim (aqueles dentes). Percebi uma fisgadinha começar no pescoço e para uma prevenção médica, saí correndo. Demorei um pouco, pois, para variar, me ocupei com minha vida. Quando voltei, senti um imenso alívio no meu pescoço cicatrizado, L... e F... estavam lado a lado sem emitir uma única palavra. Os carinhos continuavam, mas já era um grande avanço não ter que suportar aquelas vozes ranhentas. Oh! Que alívio. Voltei para casa de bom humor, depois de ambos. Aconteceu um fato interessante: quando cheguei em casa com o sorriso no rosto, meus familiares não me reconheceram, tive que dormir na rua, mas estava feliz.
Escrito por ramon às 11:00:21
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Acordei com as costas doendo, mas o pescoço agora só tinha feridas fechadas, não mais aquele sangue escorrendo constantemente e nem aquela carne viva à mostra. Acordei de bom humor, fui correndo para o quadrado para ver como estavam L... e F... hoje. “Deus existe!” gritei, quando vi que F... não tinha chegado primeiro de novo. Mas percebi que a existência do criador era pouca, quando vi F... chegando e apenas cumprimentando L... com os olhos e a cabeça. O mais interessante era que nenhum dos dois demonstrava rancor, o que “eu” poderia supor alguma briga. Eles também não expressavam nenhum sinal de que aqueles comportamentos eram estranhos à amizade dos dois. Era como se tudo sempre fosse assim. “Eu”, dentro da minha felicidade, permaneci encostado no meu ângulo durante todo tempo que me cabia. E durante todo esse tempo as únicas coisas que me fizeram apenas alisar meu pescoço foram um “desculpe” e um “que horas são?” que F... dirigiu a L..., meio sem jeito. Sei que isso é deveras muito insignificante para “eu” incomodar meu pescoço, mas sabe como é que é, o vício torna as coisas automáticas. Mas retirei as mãos do pescoço logo que vi que ele tinha relógio e havia perguntado apenas para puxar assunto. Duas pessoas estranhas obrigadas a ficarem no mesmo ângulo, é normal que um tente começar um diálogo. Chegou o fim de nossa estadia e a despedida, ou melhor, a não despedida deles foi de insuportável prazer para meu corpo desacostumado. Estava tão feliz que fiquei ali mesmo, esperando o outro dia.
Quando percebi que se encontrava no outro dia e que as feridas e as cicatrizes do meu pescoço haviam sumido, olhei em direção a minha diagonal. Não! Será que havia sido um sonho, L... estava lá com uma cara que estava esperando alguém. Será F...? Não, não era F..., pois hoje ele havia ficado em outro ângulo (aliás hoje ele estava menos insuportável). A carinha que L... estava era aquela cara de uma pessoa que está em um lugar que não conhece ninguém. Ela estava sozinha, eles não se conheciam. A amizade dos dois havia se desconstruído. Sem risos, sem carinhos, pescoço refrescante, o que houve? Uma coisa mais intrigante era que ninguém que estava presente se apercebia desse fenômeno, tudo para todos ocorria normalmente. Por que “eu”, por que só “eu” percebia o que havia se desconstruído? Como ninguém ao nosso redor se tocava da mudança ocorrida no quadrado? Será que ninguém via que “eu” não se coçava mais? Será que ninguém via que L... e F... não se conheciam? Foi nesse instante que “eu” entendi que...
No outro dia (o último da minha vida) me desloquei para um pentágono. Percebi que nada daquilo havia ocorrido (só “eu” construí, só “eu” desconstruí, só “eu”) e que o problema não estava nem no triângulo, nem no quadrado, nem no pentágono. Percebi que minha relação ciumenta é algo que a geometria não alcança a representação.
Há um limite, então...
Desculpem-me as letras e os números, por favor. Hoje sei que...
Desculpem-me as aspas e o eu, por favor. Acabo-me, então, nessas emprestadas reticências...
Autor: Ramon Alcântara
Escrito por ramon às 10:57:17
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Hoje deixo aqui um soneto de uma amigo poeta, que faz sua estréia no blog, com seu realismo urbano...boa leitura... Nano...

SÉ
Bem ali no meio do que há de pior
estava ela em seu dia comum
lutando por um amanhã melhor
a vida segue; para ela é só mais um
paro e fico observando tamanha beleza
rosto delicado envolto por seu cabelo longo
olhos esperançosos de que tudo acabe logo
sonhos despedaçados compõe sua tristeza
tudo combinado: o valor é tanto.
instintivamente ela segue seu rumo
trocará seu corpo por não sei quanto
um dia quem sabe sua sorte mude
trazendo seu príncipe encantado
aquele que a libertará desta vida rude
ORFEU
Escrito por nano costa às 00:05:56
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Oi a todos, estou com esta poesia iniciando minha participação neste blog esperando contribuir um pouco através de minha melancolia artística para os devaneios dos admiradores da poesia. Jardson Fragoso
Fugir sem pernas

Sou preso... que solidão, desespero!
Abdico da liberdade, desespero!
Perco todo o saber, desespero!
Fujo da luz, desespero!
Ignoro-me para salvar-me?
Como poderia transpor-me?
Como poderia assombrar-me?
Como poderia matar-me?
A dormência de mim se apoderou
A dor que controlei me superou
O corpo, o limiar alcançou
Amar? Quem... me amou?
O que era corpo não move.
O que era paixão não move.
O que era desejo não move.
O poeta agora morre!
Jardson Fragoso
28/08/2004
11:51pm
Escrito por Jardson às 02:07:43
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Desculpas...
Interrompo o ciclo normal desse blog para pedir desculpas as pessoas que leram e comentaram meu último post sobre o trecho de Dostoiévski... por deformatação congênita do arquivo e implicância do blog em republicá-lo sobre outro formato terminei perdendo a paciência e erroneamente exterminei o post... ficam minhas desculpas sentidas pela falta de educação... em breve, com um pouco mais de paciência, tentarei expô-lo novamente... B, adorei sua visita, volte sempre, Amanda, obrigado, Decca, Moacir, todos, obrigado e desculpas... Ramon.
Escrito por ramon às 20:02:26
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Seguindo a Trilogia do Ciúme, o segundo conto.... boas leituras, volto em breve, Ramon Alcântara
AMARELO DEGRADAÇÃO
C... sempre foi meu melhor amigo, meu real companheiro. Conhecemo-nos desde pequenos. Estudamos a vida toda nas mesmas escolas, nas mesmas salas. Aprontamos muito, quando crianças, sempre fomos bastante levados. Vizinhos, amigos, irmãos, para todo lugar que ele ia, eu estava lá; para todo lugar que eu ia, ele estava lá. Todos comentavam que C... era sinônimo de M... (este é meu nome). E assim formávamos uma única pessoa em dois corpos. Ele sempre foi meu maior herói, tudo que ele fazia era admirável para mim, e posso afirmar que o mesmo sentimento acontecia da parte dele. Algumas pessoas, principalmente nossas famílias, atribuíam os fatos de sermos filhos únicos e termos as mesmas idades como determinante de tão firme relacionamento. Porém acredito que mesmo que nenhum desses fatos existissem, seríamos tão irmãos como éramos. C... sempre foi o maior amor da minha vida. Nunca escondi de ninguém que o amava mais que a meus pais, aliás, ele confessava para mim que compartilhava do mesmo sentimento, só que tinha receio de falar em público essa desnaturação. Eu não o culpava, porque sabia, que ao contrário de mim, C... sempre foi mais recatado. Nossos outros colegas ao verem tão unida relação, não entendiam, principalmente na adolescência isso nos causou imensos problemas. Eis uma fase que não se entende a beleza pura. Durante muito tempo fomos as principais vítimas das perturbações juvenis. Mas resistíamos juntos e juntos fomos passando de fase para fase. O que importava para mim e para C... era que estávamos juntos. Crescemos unidos e unidos iríamos viver o resto de nossas vidas. Eles não sabiam o que era o amor numa amizade. Eles não sabiam o que é saber, com toda certeza, qual será a próxima atitude da pessoa que está perto. Temos poucos relacionamentos verdadeiros na nossa sociedade, relacionamentos baseados na confiança, no prazer de ver o sorriso do outro, na dedicação, no perdão. Falei em sorriso e chego à principal característica que percebi em C..., durante todos esses anos. C... tinha o sorriso mais lindo que já pude ver, com um teor angelical, com uma brancura encantadora, um sorriso transcendental que sempre me levava a outras dimensões. Sinto-me à vontade de confessar que às vezes ia ao encontro de C...só para poder desfrutar de tão maravilhoso fenômeno. O efeito prazeroso de um sorriso dele permanecia em meu coração por muitos dias. Bastava ver aqueles cantos de boca começarem a se esticar, e pressentir o movimento latitudinal de seus lábios que meu coração ia mil, todos meus pêlos se arrepiavam e começava aquela tremedeira epiléptica. Lá estavam, aqueles dentes grandes e presenciosos,brilhantes, arrumados, extasiantes. Estátua de mármore da felicidade humana, era o apelido que dava aos dentes de C... Ele, ao ouvir esses meus elogios, não se agüentava e soltava outras e outras gargalhadas, e eu em estado de nirvana experienciava aquela imensa maravilha.
Após esses momentos celestiais, eu sempre dizia a ele que se eu tivesse isso durante toda minha vida poderia me considerar um homem realizado. C... dizia que era exagero meu, que meus dentes também eram muitos bonitos. Mas eu sabia que era gentileza dele, só ele falava isso, ao contrário da beleza dos seus que era confirmada por muitas pessoas. E assim continuava minha boa vida, podia-me considerar um feliz rapaz, eu tinha os dentes de C... Tudo ia muito tranqüilo até eu conhecer R... que iria completar o incompletável. R... era uma linda mulher, mas tão linda que balançou um pouco meu relacionamento com C...
Quando a conheci, vi diante de mim a pessoa mais linda que havia conhecido depois de C... Aos poucos fui vendo que a beleza física era honestamente reproduzida internamente. Apaixonei-me, seria a mulher da minha vida. Percebi que ela gostava muito de mim, pois me tratava como a pessoa mais importante de sua vida, com muita dedicação. Dentro dessa relação que se ia construindo entre carinhos e afagos, começava a me sentir estabilizado, confortável. R... era uma menina linda com seus longos cabelos negros, seu jeito sensual, seu olhar seqüestrador e sua fala sutil e aveludada me roubaram todo meu senso. Agora toda minha vida era dedicada àquela menina, ela entrou como um furacão para arrumar o que estava bagunçado. E assim foi. Começamos a namorar. Eu me sentia o cara mais feliz do mundo, pois de um lado, tinha meu grande amigo C... e do outro, o amor de minha vida R... Não conseguia conter tanta felicidade, andava em tão bem-estar, como nunca andei. E olha que meus momentos com C... foram bastantes animados, na época eu me via realizado, achava que não encontraria nada melhor. Mas encontrei, porque agora eu tinha os dentes de C... e os olhos de R... Só tinha uma coisa que impedia de eu ter o prazer pleno: eles não se conheciam e assim eu não conseguia juntar as duas extremidades da minha completa realização. Então durante muito tempo fiquei tentando arranjar o encontro dos dois. Por contraste de tempos nunca conseguia reuní-los num único lugar ao mesmo tempo. Comecei a cismar com aquela triste persistência. Eu queria dar para R... o melhor presente que alguém pode dar para quem ama, que era o privilégio de ver o sorriso branco de C..., mas não conseguia. Aproveitei o intervalo para aumentar ainda mais minhas felicidades nas duas relações. De um lado, mantinha minha irmandade com C..., continuando nossa vida, construindo nossa história. Do outro, conhecia cada vez mais um pouco de R... e, a cada descoberta, percebia como era linda aquela menina. Seus gestos, suas atitudes, tudo ia em plena conformidade ao que seu olhar apresentava, ela era linda por completo. Nesse período, ia crescendo sentimentalmente, e o tempo, passando. Durou mais tempo que eu imaginava, comecei realmente a ficar preocupado com essa armadilha do destino.
Escrito por ramon às 11:39:27
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Entretanto o grande dia chegou. O grande dia. Tive a oportunidade de juntar C... e R... lá em minha casa. Estava tão feliz, tão gratificado que não conseguia me conter, não podia ficar parado. Eu era só agitação e expectativas. Finalmente podia ver o tão esperado encontro, agora sim poderia afirmar que era unicamente feliz. As grandes razões de minha vida, juntas, em minha frente. Isso tudo começou a provocar uma intensa ansiedade em mim, que por exagero, provocou até um certo desconforto físico. Mas era o grande dia e um simples mal-estar não poderia me atrapalhar, desconsiderei-o. R... foi a primeira a chegar, linda e sensual como sempre. Superelegante, atendia meu pedido de considerar aquele momento como solene. Até a chegada de C... demorou um pouco, aproveitei para namorar um pouco e ver se isso diminuía minha ansiedade. Ficamos eu e R... algum tempo a sós. Comuniquei a ela essa pequena incomodação que sentia, ela falou que era natural e fez um carinho em mim. Todo derretido, esqueci o mal-estar. Até que o som da campainha ecoou. Era ele. Olhamos um para o outro, percebi que R... a essa altura também estava nervosa. Fui atender. E C... entrou. Ao ver R... não pôde fazer coisa melhor: deu um sorriso. Minhas tremedeiras começaram ao ver os cantos da boca se alargarem, ao ver a expressão facial se expandir. Vinha o grande momento que eu esperei por muito tempo, finalmente R... poderia ver que não era delírio meu, que os grandes e extasiantes dentes de C... realmente eram hipnotizantes. Ele sorriu e olhou para ela. Ela também sorriu, não era qualquer sorriso como os que ela dava para mim. Senti que havia algo a mais, será que ela sentiu também o tão venerado prazer que eu sentia? Comecei a ver que havia dado tudo certo, eles iriam se gostar, minha vida seria uma fantasia paradisíaca. Por esse instante, no meio de todas minhas tremedeiras e dos meus arrepios, sentia-me mais feliz do que toda minha vida. Até que C... vira o sorriso para mim. NÃO! NÃO! Eu não acreditava, havia algo de errado, os dentes de C... não estavam tão brilhantes. A principio, pensei que minha indisposição impedia que eu visse a realidade. Depois, fiquei achando que devia ter sido porque ele havia olhado pouco para mim, no mesmo instante direcionando o sorriso para R... Aquela curiosa impressão ficou me perturbando. Os dentes de C... estavam com um branco meio fosco. Mas procurei dar pouca importância. Começamos as conversas, as apresentações, os elogios, tudo ia nos conformes. R... estava como nunca, não conseguia tirar os olhos (aqueles mesmos) de C..., e ele também compartilhava o mesmo comportamento. A esse momento fui sentindo algo mais estranho, o grande dia, o grande encontro estava como planejei, mas alguma coisa me incomodava.
Escrito por ramon às 11:36:15
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Seria porque eles se fitavam estaticamente e nenhum dos dois olhava para mim? Ou seria aquele mal-estar somado àquela lembrança fosca dos dentes de C... Fiz algum barulho para chamar a atenção, ela olhou para mim, deu um sorriso discreto e comentou algo com C..., ele sorriu para ela e virou-se na minha direção. Quando está defronte a mim, expressa um início de sorriso, não termina, mas o principal pude perceber. Comecei a chorar, os dentes de C... estavam todos amarelos, um amarelo estranho que ofuscava o brilho antigo daquele sorriso. Corri para meu quarto, para que minhas ‘alucinações’ não atrapalhassem aquele belo e esperado momento. Fiquei por lá durante algum tempo, mas como nenhum dos dois foi lá ver o que havia acontecido, porque eu havia saído tão bruscamente, voltei. Lá estavam eles, estáticos, um olhando para o outro, conversavam como se estivessem totalmente fora do contexto. Aumentei o som, porque a música que estava tocando era a predileta de C..., ele, ao perceber, demonstrou uma imensa satisfação. Essa satisfação causou-me um grande alívio, aquele era meu C..., e ele olhou mais uma vez para mim. Só que dessa vez fui eu que virei o rosto primeiro, não consegui agüentar por muito tempo aquela visão doentia, C... sorria para mim com aqueles dentes amarelo ferruginoso, um amarelo escuro, até vivo, mas muito escuro. Não suportava mais aquela situação, esse não era meu companheiro que viveu comigo os grandes momentos de minha vida. R..., a mulher de minha vida, parecia ser uma outra pessoa também, estava fria, evitava-me, a dedicação transformara-se no mais cruel desdém. Eles começaram a dançar, estaticamente um olhava para o outro. Eu fiquei no sofá, sentado, sem conseguir entender o que ocorria. O grande dia. Não agüentei. Puxei ela pelos braços e levei-a para o quarto. Chegando lá, em gritos, já desesperado, perguntei o que estava acontecendo, onde estava minha R..., minha dedicada R... Ela só dizia uma coisa. Dizia que o sorriso dele era encantador, dizia que estava extasiada por aquele brilho branco dos seus dentes (aqueles mesmos). Afirmou que nunca havia visto nada igual, que experienciava a razão da vida. Dizia que seu corpo, seus sentidos, seu coração se tornaram independentes diante de tamanha brancura, de tanta pureza. Aqueles grandes e brilhantes dentes haviam-na hipnotizado, era o que ela dizia. Como eu já não conseguia mais ver esses dentes, todo seu relatório soou um pouco estranho para mim. O mal-estar já começava a corroer meus órgãos, sentia-me bastante mal, falei isso para ela, mas ela parecia nem me ouvir dizendo sempre que estava imensamente feliz. NÃO! NÃO! Algo de errado acontecia naquele dia. O que havia com minha R...? O que havia com meu C...? Abri a porta do quarto para ver como ele estava sem nossa presença. E dei de cara com ele, parado na frente da porta, com aquele sorriso bestial, doente, irônico, demente, os dentes, todos, como lama, podres, marrons. Toda sala estava fétida, um ar insuportável. E ele lá sorrindo para mim. Podia ver claramente larvas andarem entre um dente e outro, tudo era podre, um lodaçal escorria pelos cantos da boca enlargados. Ela me empurra para poder ficar olhando para ele. Repete elogios e mais elogios àqueles lindos dentes brancos. Ficaram muito tempo se olhando em pé. Eu que já me sentia internamente vazio, pois a essa altura todos meus órgãos haviam sido consumidos pela angústia, fiquei estendido no chão, a olhar aquele grande encontro. Meu companheiro, meu irmão e minha namorada, meu amor. Tentei inutilmente me debater e achar que aquilo era um pesadelo, fechei os olhos em prantos. Ao abri-los dei de cara com o grande dia, o grande encontro, os dois estavam se beijando. NÃO! NÃO! Isso eu não iria suportar, levantei com muita dificuldade, agarrei-o e o agredi. Ele meio caído sorria insistentemente, sorria com aqueles três ou quatro dentes, que entre sangue e pus, ousavam em se manter pendurados por uma pelanca. Aquele hálito ardido vinha em minha direção e aquele sorriso provocativo soava como uma gargalhada agonizante. Ele ria, ria muito. Comecei a me lembrar de toda nossa infância, nossa adolescência, de tudo de bom que havíamos passado juntos. Não podia ser meu C..., não podia. R... com um olhar apaixonado ia em direção a ele para levantá-lo. Eu não agüentei, a angústia começava a deteriorar meu cérebro. Corri na direção dos dois e, à força, separei-os. Tentei desesperadamente mostrar a ela que aquele sorriso de que eu havia falado não mais existia, que ela estava iludida, perguntava se ela não me amava. Olhava para ele, perguntava o que estava acontecendo, onde estava meu irmão, perguntava se ele não me amava mais, onde estavam seus dentes brancos. Onde estava a alvura do seu ser. Ele tentava me dizer algo, mas sem dentes, não consegui entender o que tentava balbuciar. Aproximei-me, mas o fedor era insuportável e aqueles insetos que saíam de sua boca juntamente com a gosma que ele golfava a cada instante, não permitiam que ficasse por muito tempo próximo. Foi então que percebi que aquele incômodo que senti antes deles chegarem havia passado. Tinha seguido todo seu curso, corroendo-me todo por dentro. Já não tinha mais nada, nem coração, nem estômago, nem cérebro, nada, nada, estava totalmente vazio. E a angústia assim se foi, por isso não me incomodei nem um pouco em pegar aquele dejeto que um dia chamei de irmão, colocá-lo no vaso sanitário e puxar a descarga. Pronto, ele se foi. Agora podia amar uma única pessoa. Vi que não se pode unir dois amores. Não há grandes dias, grandes encontros com três. Nunca houve e nunca haverá. Um sempre é eliminado. Voltei para sala e olhei para R..., ela olhou para mim. Sorri. Fiquei sorrindo por muito tempo para ela, para mostrar que agora só havia eu e ela. Sem dentes brancos, sem brilho, sem hipnose, sem amigos. Só eu e ela. Eu e ela. Eu e ela.
Escrito por ramon às 11:35:30
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REFLEXÃO DE UM CHAT
Entramos no mundo dos sonhos, em que em um extremo está a escoria da sociedade, o submundo da prostituição, que saiu das ruas escuras e entrou direto no seu quarto pelas linhas da comunicação, e, do outro lado os ingênuos solitários que têm apenas o computador como filósofo amigo, o confessionário da nova era, uma tela de dezessete polegadas que pode te transportar ao mundo da esperança, a fé virtual...letras sem rosto desfilam pela imensidão da nossa imaginação.
Nano Costa
Escrito por nano costa às 14:12:34
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haikai
Hoje vou brincar de Millôr Fernandes, deixo pelo caminho um Haikai engraçadinho...
Um ótimo final de semana a todos...beijos e abraços...

Prima Vera
Vacas, trepadeiras
Chá de bebê
Nano Costa
Escrito por nano costa às 00:07:54
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Olá pessoas.... tinha criado uma resistência forte de postar meus contos aqui no blog, por imaginar que os textos eram demasiados extensos, mas farei um teste... esse texto me apresentou a literatura... caso gostem virão mais três, faz parte de uma trilogia (de 4 contos)... abs, Ramon.
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SENSAÇÕES NA CASA DO CIÚME
Do livro Da Melancolia, Conto a Poesia
“Vi de longe aquela casa horrível, eu diria, horripilante. Janelas longas (modelos antigos), entupidas de cimento para barrar a vista, a luz. Portas de metal, talvez bronze, feridas pelo vandalismo daqueles que não gostavam da casa. Assim, lixos, fezes, crianças renegadas e alguns animais peçonhentos acumulavam-se defronte delas (eram duas). Percebi, logo que me aproximei, que o ar era fétido, um clima de vômitos com densidade menor que a do ar (que não perdia em valor, o valor dos vômitos (?)). As pinturas das paredes estavam numa luta, já agonizante, com o mofo, construindo assim uma arte jamais imaginável pelos grandes(?) artistas da história da humanidade. Mofo, tinta, rachaduras, desgostos estampados nas frases (como eram inúmeras) que os amantes deixavam lá. Bom! Já não me sentia bem, quis ir embora, mas percebi, só diante da primeira porta, que o caminho pelo qual eu havia vindo sumira. Nada existia atrás de mim. Aquela ladeira (quantas vezes eu subi?). Entrei. Oh! Como foi desesperador ouvir aquele som progressivo, que as entranhas da porta emitiam. Durou horas e horas, e eu me sinto à vontade de afirmar que ele ecoa em minha cabeça até hoje. Quando entrei, a primeira coisa que vi foi uma criança, que se encontrava à minha esquerda (sempre à minha esquerda, sempre!), ainda nova, tinha por volta dos seus 21 séculos. Ela olhava para mim, com aqueles olhos, aliás, olhos não, bocas, pois eles gritavam para mim, dizendo “Não entre! Não entre! Não entre!”. Não ouvi. A verdadeira boca, ao ver que eu me incomodava com o chão, emitiu as seguintes palavras: “Com o tempo você vai se acostumar”. Era refutável aceitar que o ínfimo tempo faria eu me acostumar com aquele chão, feito de madeira, que por causa da umidade, se encontrava coberto de bolor. A cada passo que eu dava, as madeiras afundavam-se, levando os meus pés ao fogo do inferno. Hoje eu não tenho pés, em grande parte devido a esse fato. Percebi que a criança já ria de mim, ria com um sorriso irônico, beirando a bestialidade, algo como um bilioso (?) (Nunca conheci ninguém bilioso). Vi, em destaque na casa, alguns quadros. Eram quadros imponentes, alguma coisa da antiguidade, que representavam o poder. Era um choque com todo o clima miserável que imperava na casa. Resolvi ver o que estava pintado naqueles quadros, mas como o corredor que levava a eles era um pouco longo, levei alguns anos para chegar lá. A cada passo, crescia em mim uma verruga de curiosidade. Hoje posso falar que se meu corpo se encontra cheio de verrugas (são milhares) isso se deve a esse corredor e a esses quadros. Cheguei lá, e para meu enorme espanto, consegui ver o conteúdo dos quadros: meus amigos. Todos estavam lá. Chorei, mas... Prefiro omitir essa parte. Meus amigos, eu não esperava. Eu não esperava, todos lá com as mesmas caras, aquela cara que tenta demonstrar os braços atados, mas que já estando aqui passaremos as mãos. E as mãos, todas, corriam todo o corpo dela, já não havia corpo suficiente para tantas mãos. Tantas mãos, as bocas emergiam buscando o corpo dela, as salivas formaram um mar, salivas, sedes, ondas, eu me afogando. Morri ali, mas a casa era grande, tive que continuar, mesmo morto. Os degraus da escada me chamavam. Então, morto eu fui. A princípio, pensei em desistir, pois minha visão estava ficando turva, minhas pernas enrijecidas, e em geral todo o meu corpo tornava-se decrépito. A decomposição estava chegando, e a passos rápidos, longos, atravessou todo o corredor atrás de mim. Quando, de lá de cima, ouvi gritos, uivos de sofrimento, mas ao final (nos cantos da boca) percebi um certo prazer. Era ela. Era ela. Era ela. Era ela. Era ela. (percebeu? 5 vezes). Comecei a sentir as 5 letras roçarem no meu estômago, vinham e iam, produzindo vômitos, iam e vinham, produzindo úlceras. Sentia-me bastante mal, mas os gritos continuavam e eu sabia que era ela. Subi. Durante a subida, percebi que a escada ia numa convergência, as paredes afunilavam cada vez que eu me aproximava da porta única, que se encontrava lá em cima"
Escrito por ramon às 09:33:33
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"Depois de longos anos que passei, finalmente cheguei lá (não preciso dizer que cheguei rastejando). Abri a porta e lá estava ela. Lá estava ela. Sinto-me incapaz de descrever as sensações que tive ao vê-la. Chorei, mas... Prefiro omitir essa parte também. Durou algum tempo, eu a cortejava, deitada na sua cama de ferro (já enferrujada). Naquele colchão que se via claramente a guerra santa, entre ácaros, pulgas e cristãos de um lado; baratas, vermes e muçulmanos do outro. Mas não importa, pois lá estava ela. Aqueles olhos, castanhos, mel, fel, o ponto negro, o buraco negro, aqueles olhos. Lá estava ela. Olhos que me indagavam, às vezes fixos, às vezes desviantes. Olhos que quando somados a toda expressão do rosto (também indagadora) me faziam gozar. Mesmo morto gozei. Que olhos! Que sorriso, tão largo que ia de uma extremidade a outra dos braços de Deus. Um sorriso latitudinal, que permitia ver apenas parte dos dentes e da língua. Uma pequena parte, mas suficiente, muito suficiente para eu ver que dentro dela só havia luz. Que sorriso! Olhos, sorrisos, expressão facial de anjo (?) (nunca conheci um anjo). Eu a amava. Lá estava ela. Aqueles cabelos, sobre suas orelhas, fazendo o desenho da perfeição. A perfeição! Cabelos lisos castanhos, mel, fel... negros, buraco negro... Que cabelos! Não, eu não tinha olhos suficientes para ver tanta beleza em minha frente estirada numa cama nojenta, mas tentava. Fechava e abria os olhos para tentar ver melhor. Pele alva, rosada, rosas que não caberiam no Éden. Lisa pele. Que pele! Alva. Lá estava ela, o corpo. O corpo, o corpo, o cor...po, o cor...po, o cor...po, o c... não sou capaz, o corpo, o corpo, que corpo, que c...or...po! Ela era uma criança, um corpo de criança. E estava nu. Deitado. Na minha frente. Aproximei-me. Ele estava nu. Aproximei-me. Que corpo, que olhar, que sorriso, que cabelo, que corpo, que corpo! Uma criança nua. Era Ela. Aproximei-me. Eu iria beijá-la. Os olhos e a expressão continuavam indagando, o primeiro principalmente, pois estavam bem abertos. Eu iria beijá-la, quando ouvi algum barulho atrás de mim. Olhei para ela, já não indagava, já não sorria e ao mesmo tempo, acredite, de uma só vez emitiu vários nomes, reconheci todos, reconheci principalmente aquele jeito meigo de ela falar. Para cada nome, um tom de voz, e quando todos estavam misturados, criavam uma canção. A canção do meu amanhã, agora distorcida, agora distorcido. Vi que ela procurava algo atrás de mim, o barulho aumentava. Então olhei para trás. Lá estavam eles, meus amigos, todos meus amigos. Os quadros haviam subido a escada. Com muito esforço, todos estavam lá em cima. Não! Não havia todos. Lembro-me muito bem quantos eu vi lá embaixo, presos no alto da parede. Faltava um. Eles perceberam que eu notei a falta desse. Então se afastaram para que eu visse que ele havia ficado no meio da escada. Ela também viu e emitiu um suspiro suspeito (sempre suspeito, sempre!). Percebi que esse devia ser o que eu mais me preocupasse. Ele ria muito de lá de baixo, gargalhadas atordoantes. Gritava: “Eu já provei, eu já provei, eu já provei!”. Não consegui ouvir esses gritos por muito tempo, e ao ver nos olhos dos outros meus amigos escrito: “Eu também quero provar”, o meu ouvido começou a jorrar sangue, os meus olhos da órbita saíram e juntamente com eles meu senso e a minha tão útil ilusão. Virei e corri em direção a ela, e em alguns anos mantive minhas mãos apertando o pescoço dela, numa cena estática. Ela não podia ser deles, não podia. Não... Não... Apertava cada vez mais e mais... Apertava, apertava. Eu a matei por amor. Ninguém nunca a amou como eu. Eu conheci o verdadeiro amor, o amor absoluto, que como Deus, o nosso criador, dá a vida e traz a morte.”
Escrito por ramon às 09:32:55
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Esse foi o relato de I... que durante um surto esquizofrênico matou sua namorada M... por estrangulamento. Hoje ele se encontra internado num presídio psiquiátrico da cidade C... e insiste nessa história, como se tudo tivesse ocorrido milimetricamente assim. Cada vez que ele é interrogado a respeito, conta esse mesmo relato, com todas as vírgulas, todos os pontos, sem trocar uma ordem de palavra. Seus parentes e os da moça afirmam que após uma manhã tranqüila na faculdade em que eles estudavam, ele foi para casa e duas horas depois apareceu na casa dela com um comportamento estranho. Ela estava lá com alguns amigos de ambos. Quando subiu, ele foi atrás e no quarto estrangulou-a até a morte. Foi pego em flagrante, porém foi constatado que não se encontrava em sua sanidade mental. Segundo os amigos, I... sempre havia sido um cara tranqüilo, que só de vez em quando, expressava um ou outro gesto de ciúme da namorada, mas tudo numa situação suportável. Ele tinha alguns amigos, apesar da sua mudança constante de humor, e na faculdade sempre teve ótimo desempenho. A mãe de I... disse que respeitava a individualidade dele, por isso não mexia nem perguntava sobre suas coisas. Depois do internamento, quando a mãe abriu o armário dele, lá encontrou inúmeros, muitos mesmo, escritos agressivos, todos relacionados com o ciúme que ele sentia por M... O que mais se destacou foi um conto intitulado “Sensações na Casa do Ciúme”, que contava as sensações de um garoto durante o surto esquizofrênico em que matou a namorada por ciúmes. Esse conto acabava com a seguinte frase: Esse conto acabava com a seguinte frase: Esse conto acabava com a seguinte frase: “As ninharias, leves como o ar, para quem tem ciúmes, são verdades tão firmes como trechos da sagrada escritura” (W. Shakespeare, Otelo).
Autor: Ramon Alcântara
Escrito por ramon às 09:30:58
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Jorge Vecilo Homenagem
...alô gente, essa semana fui envolvido de tamanha forma por um poeta que me senti na necessidade de prestar uma homenagem a ele aqui no nosso espaço... falo de Jorge Vecilo, um dos grandes poetas da moderna música popular brasileira... envolvido fui porque ele irá realizar um show aqui em SSA e como já havia uma história com as músicas dele, pus tal show como ida certa... outra coincidência foi que no blog da Cláu encontrei uma poesia dele, e enquanto lia o texto dela, ouvia a música sendo pego de surpresa no final... pois bem, como aqui é o espaço da Poesia, presto minhas homenagens a este poeta e sua poesia: Jorge Vecilo.
Ramon Alcântara
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Fênix (Flávio Venturini e Jorge Vercilo)
Eu, prisioneiro meu descobri no breu uma constelação Céus, conheci os céus pelos olhos seus Véu de comtemplação Deus, condenado eu fui a forjar o amor no aço do rancor e a transpor as leis mesquinhas dos mortais Vou entre a redenção e o esplendor de por você viver Sim, quis sair de mim esquecer quem sou e respirar por ti e assim transpor as leis mesquinhas dos mortais
Agoniza virgem Fênix (O amor) entre cinzas, arco-íris e esplendor por viver às juras de satisfazer o ego mortal
Coisa pequenina, centelha divina, renasceu das cinzas Onde foi ruína pássaro ferido hoje é paraíso Luz da minha vida, pedra de alquimia Tudo o que eu queria Renascer das cinzas
Quando o frio vem nos aquecer o coração Quando a noite faz nascer a luz da escuridão e a dor revela a mais esplêndida emoção O amor
Escrito por ramon às 23:21:47
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